
Em Julho de 2003 eu fiz uma entrevista com a (então) vereadora de São Gabriel, Sandra Xarão, acerca dos conflitos sobre a ocupação da Fazenda Southal (leia abaixo a entrevista de 2003). O desfecho previsto em 2003 se consumou hoje.
Um trabalhador rural sem-terra morreu hoje pela manhã, vítima de um tiro, durante a desocupação pela Brigada Militar na Fazenda Southal.
Entrevista com a vereadora Sandra Xarão – Julho/2003
Sandra Xarão, vereadora de São Gabriel/RS desde 1989, é filha de ex-preso político. Elegeu-se em 1988 pelo PDT. Em 1989, com a criação da UDR passa a ter divergências com Rossano Dotto Gonçalves (atual prefeito de São Gabriel) e desliga-se do partido e ingressa no PT, sendo a única vereadora de esquerda, entre os 19 parlamentares. Dedica sua militância à luta das mulheres e dos trabalhadores rurais.
Desde que a Fazenda Southall foi declarada improdutiva pelo Incra e determinada a desapropriação dos mais de 13 mil hectares de terra, os conflitos são eminentes no município. Recentemente, um panfleto anônimo sugerindo formas de "exterminar" os sem-terra circulou pela cidade.
Na semana passada, as ameaças dos latifundiários do município contra os trabalhadores rurais sem-terra ganhou manchetes nos noticiários do país. Eles chegaram a organizar um comboio que iria se confrontar com uma manifestação semelhante do MST, mas no domingo, dia 29, acabaram desistindo da idéia após um ato público que reuniu cerca de 3 mil pessoas e de uma audiência com o Ministério Público Estadual.

Autoridades do estado temiam o confronto dos dois movimentos com o cruzamento das marchas, mas os sem-terra atrasaram a caminhada para evitar conflito. Nesta segunda-feira os integrantes deixaram Restinga Seca em direção a Santa Maria. A caminhada será de 45 quilômetros e eles devem chegar na quarta-feira. Somente lá em Santa Maria, é que eles decidirão quando devem retomar a marcha para São Gabriel. O MST está impedido por liminar obtida na Justiça pela prefeitura de permanecer em São Gabriel, podendo apenas circular por vias públicas. O prefeito da cidade, Rossano Gonçalves, que é contra a desapropriação, afirmou neste domingo que mantém vigília no parque de exposições do município.
A vereadora Sandra Xarão, que já sofreu ameaça de morte por parte dos ruralistas, conversou emocionada com Sônia Corrêa, para quem concedeu entrevista ao Vermelho.
Vereadora de São Gabriel (RS) comenta violência dos ruralistas da região
Vermelho: Quando e como começaram as divergências entre o MST e os ruralistas de São Gabriel?

Sandra Xarão: Para entender essa história, é preciso voltar ao processo de desapropriação da Fazenda Southall. Quando o INCRA foi realizar a primeira vistoria na fazenda, os ruralistas fizeram barricadas e impediram a vistoria. Na segunda vez, o INCRA precisou contar com a Polícia Federal para conseguir entrar na Southall. Eles realizaram a vistoria e constataram que a Fazenda era improdutiva, mas os proprietários não foram informados da inspeção, o que levou a um processo judicial, de não reconhecimento de que os 13 mil hectares são improdutivos.
Vermelho: O MST, em nota oficial denuncia outros conflitos anteriores. São Gabriel já viveu outros episódios como este?
Sandra: Na verdade a sociedade gabrielense não conhece o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, porque o MST nunca realizou nenhuma ocupação, ou manifestação no município. É a primeira vez que o povo de São Gabriel vai receber o Movimento. Os problemas relacionados à terra, até aqui, foram com o INCRA, como no momento da vistoria.
Vermelho: Quem é o proprietário da Fazenda Southall? Ele tem vinculação partidária?

Sandra: Eu não tenho contato com ele. Seu nome é Alfredo Southall e o que sei é que ele é um grande proprietário imobiliário na cidade, dono de diversos prédios. Além da Southall, possui uma outra Fazenda no município, onde mora e faz pesquisa genética. Se ele tem alguma vinculação política, eu não sei. O lado dele, no entanto é inconfundível. O que sabemos ainda é que apesar da Fazenda ter sido avaliada em 27 milhões de Reais, a propriedade acumula uma dívida de mais de 32 milhões de Reais.
Vermelho: Como é a Fazenda Southall?
Sandra: Para se ter uma idéia, a Fazenda é maior que 133 municípios gaúchos, onde não há plantação alguma. Talvez haja algum gado solto no campo. Na Fazenda trabalham 40 pessoas, que com a desapropriação também serão assentados no local.
Vermelho: Você denunciou que vem sendo ameaçada de morte. Como estão sendo feitas essas ameaças?
Sandra: Na realidade eu recebi um telefonema de uma mulher. Ela me questionou se eu tinha conhecimento que iria morrer muito gado no campo. Sugeriu que eu ligasse para minha sogra para saber, já que ela tem gado. E, disse que eu morreria como o gado. No momento eu não dei muita importância para o telefonema, mas comuniquei meu marido e ao meu partido, o PT. Isso aconteceu logo depois da decisão pela desapropriação da Southall. Eu não cheguei a comunicar a polícia, naquela oportunidade.
Vermelho: E quando surgiram os panfletos anônimos? O que dizia?
Sandra: Foi depois. Uma companheira me ligou, perguntando se eu tinha conhecimento dos panfletos e dizendo que eu ligasse o rádio, pois era só o que se falava. Ao ouvir, fui correndo para a Câmara de Vereadores. O panfleto já estava lá. Quando o vi, me apavorei. Era algo tão repugnante e ameaçador, como nunca tinha visto antes.
Vermelho: Como a sociedade gabrielense recebeu os panfletos?
Sandra: O primeiro sentimento que tomou conta do povo foi de indignação e repúdio aos panfletos. Depois o medo passou a tomar conta das pessoas, pois a propaganda que se recebe é que está se aproximando da cidade um bando de bandidos, assassinos, estupradores que vêm tomar as casas das pessoas.
Vermelho: Que se tem conhecimento, conflitos e ameaças desse tipo não são comuns no Rio Grande do Sul. Como você está vendo isso?
Sandra: Lamentavelmente o que temos observado é que a partir dessa propaganda fascista que está sendo feita em São Gabriel, e conforme falei, à medida que a Marcha vai se aproximando o medo está tomando conta do povo gabrielense. As pessoas comuns, das vilas, da periferia da cidade, estão se armando para proteger suas casas. É desigual a forma que a informação chega até as pessoas mais humildes. Além dos panfletos, o terrorismo está sendo feito pelo rádio. Só se fala nisso, mas com a forma dada pelos latifundiários. No entanto, são os não-proprietários que estão assimilando este "suposto perigo" do MST. Não há precedentes que eu conheça deste tipo de ação no Rio Grande do Sul.
Vermelho: O que mudou na sua vida, depois das ameaças?
Sandra: É tudo muito triste (...neste momento Sandra Xarão se emociona.). Sou uma mulher que cresceu aprendendo a estar ao lado das pessoas mais pobres. Meu pai foi trabalhista. Estou no meu quarto mandato de vereadora e nunca arredei pé das minhas posições. Meu trabalho sempre foi voltado para duas questões fundamentais: as mulheres e os trabalhadores do campo. Conheço cada pessoa desta cidade, sei a data de aniversário de cada uma delas. Agora tenho que andar com segurança e não posso nem tomar uma água mineral. Tenho saído de casa apenas para ir para a Câmara. Temo pela segurança da minha família e estou refém de uma luta que é justa, pois ninguém está debaixo da lona, ou perambulando pelas estradas porque quer. Eles querem um pedaço de terra para plantar e eu apóio esta luta.
Vermelho: O Deputado Dionísio Marcon afirmou na Comissão de Cidadania e Direitos Humanos que o prefeito de São Gabriel, Rossano Dotto Gonçalves estaria incitando a violência contra os trabalhadores rurais sem terra. Com base em que o deputado faz essa acusação?

Sandra: Vou lhes dizer uma coisa: São Gabriel está vivendo um momento de terra sem Lei. Para terem uma idéia, eu tive que fazer as denúncias de improbidade administrativa contra o Prefeito no Ministério Público Estadual, porque a Promotora da cidade tomou partido dos fazendeiros. E isso não é velado, não. Ela inclusive participou do ato promovido por eles. Quanto ao Prefeito existem várias coisas que comprovam a sua participação direta neste movimento que está incitando esse clima de guerra na cidade. Diariamente ele participa de diversos programas de rádio, ameaçando e amedrontando as pessoas. Ele tem dito que se essas pessoas do MST forem assentadas na cidade, o povo perderá a sua qualidade de vida, não terá mais a mesma qualidade de atendimentos de saúde e educação por exemplo. Estou gravando, na medida das possibilidades essas declarações para juntar à denúncia. Mas, existe a Rádio Batovi que é a preferida do Prefeito. Ali ele fala barbaridades e a direção da Rádio se recusa a fornecer as fitas. A CCDH vai ter que solicitar.
Vermelho: E quais as ações do Prefeito caracterizam o uso da máquina pública?
Sandra: O próprio presidente do Sindicato Rural, José Francisco Costa falou, em entrevista, que o Prefeito mandou as máquinas da prefeitura abrir uma vala num lugar chamado "Corredor da Reiúna", que dá acesso à Fazenda, para impedir a aproximação dos Sem-Terra. A vala é tão perigosa que diversos acidentes já ocorreram por lá. O primeiro deles, inclusive, foi com o próprio ônibus da prefeitura, que faz o transporte escolar. Quando o ônibus caiu no buraco estava cheio de crianças. Outros acidentes já ocorreram no local.
Vermelho: Quando deverá chegar a marcha do MST em São Gabriel?
Sandra: A marcha está em Restinga Seca, indo para Santa Maria, à convite oficial do Prefeito da Frente Popular, Valdeci Oliveira. Depois a Marcha vai seguir para São Gabriel, mas não há pressa em chegar na cidade. O principal interesse dos trabalhadores é conversar com as comunidades por onde passar, esclarecendo o seu papel pacífico e de luta contra o latifúndio.
Vermelho: O clima na cidade é de que haverá conflitos?
Sandra: Se a marcha chegasse hoje, certamente haveria conflitos. Temos informações que existem tocaias. A polícia está investigando.
Vermelho: Que medidas de segurança foram tomadas?

Sandra: Tenho que fazer justiça ao Secretário Estadual de Segurança, José Otávio Germano, que tem colocado a Brigada Militar e Polícia Civil empenhada em evitar qualquer conflito. Agora mesmo, está saindo de São Gabriel uma marcha dos fazendeiros em direção a Vila Nova do Sul. A polícia controlará para que não haja desvio de rota e as patas de cavalo encontrem os pés cansados dos trabalhadores do MST. O próprio governador Rigotto tem tido uma postura firme, para que o tratamento não seja diferenciado para os trabalhadores ou para os ruralistas. A minha própria segurança tem sido garantida pelo Estado e a Polícia Federal.
Vermelho: E que medidas políticas?
Sandra: Temos articulado com os mais diversos setores do Governo Federal e Estadual, e Assembléia Legislativa. Os movimentos sociais, os partidos políticos de esquerda, artistas, intelectuais, todos eles tem se manifestado em solidariedade. E todos estarão em São Gabriel na chegada da Marcha.
Vermelho: Qual a perspectiva para a solução desse episódio?
Sandra: Agora só depende do Supremo que tem de se manifestar quanto à desapropriação da Fazenda. É a Ministra Elen Gracie quem tem o poder de evitar o confronto. Preciso acreditar que com a justiça decidindo pela desapropriação e assentamento dos trabalhadores Sem-Terra, até poderá haver resistência, mas eles não teriam coragem para uma desobediência civil.
Vermelho: E quanto a você?

Sandra: Eu continuo na luta, não mudo meu pensamento, não troco de lado. O prefeito tem sugerido em suas entrevistas que eu me retire de São Gabriel, inclusive usando a frase de Sepé Tiarajú: "Essa terra tem dono"... Mas, eu sou de raízes indígenas. Para o índio, a visão que se tem da natureza, da terra é outra. A terra é para tirar o alimento para quem dela precisa. Eu fico em São Gabriel e fico na luta.
Fonte: por Sônia Corrêa, www.vermelho.org.br
Fotos: clicrbs