Aquele empurrão significava apenas que ele a amava e, de tanta veneração, não suportava nem imaginar a hipótese de não tê-la. Então relevara o empurrão. Era uma demonstração de amor todo aquele ciúme.
Depois, começaram as palavras duras. De tanto amor que ele tinha por ela, acabava vendo chifre em cabeça de cavalo. Qualquer movimento lateral de seu rosto podia significar um olhar destinado a outro homem. E, mesmo sem empurrá-la, desferia-lhe golpes de palavras. Doíam mais do que aquele empurrão. Mas, só um amor tão grande poderia fazê-lo tão inseguro. Então, relevara as palavras.

Num dia, apareceu na reunião dos amigos – todos casais – um novo personagem. Logo ele notou, supôs, imaginou que ele havia olhado para ela e, o pior, havia sido correspondido. Bastou para arrancá-la da confraternização com movimentos bruscos, apertando-lhe o braço.
Ao chegar em casa, o empurrão e as palavras duras já faziam companhia um ao outro. Mas, não satisfeito, ele a esmurrou no rosto, fazendo-lhe jorrar o sangue. Era amor. E, mais uma vez, ela relevou, mesmo tendo que passar uma semana escondida do mundo, até que o inchaço se desfizesse e os hematomas se desmanchassem.
Era tanto amor que ele sentia por ela, que chegou imaginar que ela teria recebido na cama onde dormiam um outro homem. Um não. Vários.
Então, num momento destas fantasias daquele ser que tanto amor continha, escoltado de álcool e drogas, ele chegou em casa e, ao vê-la dormindo, empunhou a adaga de cozinha e desferiu-lhe muitos golpes, desfigurando completamente aquele rosto e aquele corpo que ele tanto amara e que relevara seus atos de “amor”.